Acabou de jantar e pediu a conta, como de costume. Aquele dia resolvera ir sozinho ao restaurante, para tentar colocar as ideias em ordem e pensar um pouco na vida. Confessou ao garçom que tinha exagerado um pouco, pedindo um filé daquele tamanho só para ele. De quebra, ainda comeu a sobremesa e tomou um cafezinho. Estava quase sendo expulso da própria calça, já que tinha a sensação de não caber mais dentro dela. Preencheu o cheque e levantou-se sem pressa, ajeitando a cadeira e afrouxando um pouco o cinto.
Mas bastou uma olhada, em direção à porta de entrada, que agora era a única saída, para que ficasse pálido feito uma folha de sulfite em branco. Perdera toda a serenidade que sentia até então. Também, quem mandou ir ao lugar de sempre? Sua ex-mulher estava sentada à mesa, com o namorado novo, bem no caminho que precisava fazer para se livrar daquele constrangimento. Não sabia o porquê, mas não se sentia à vontade para falar com ela, nem ao menos para dar um simples “boa noite”, arrematado com um sorriso amarelo. O pior é que ela estava acompanhada e pareciam ter acabado de chegar.
Sem encontrar outra alternativa e antes que ela o visse, sentou-se novamente e pediu mais um chopp. As pessoas ao redor estranharam a cara que fazia. Parecia ter visto o diabo em pessoa, dançando a Macarena, numa Sexta-Feira Santa. Psicologicamente não estava preparado para enfrentar a situação. Aliás, nem sabia ao certo porque haviam terminado o relacionamento de tantos anos. Definitivamente não podia passar por ali. Tinha de haver outra saída. Não queria ser visto, de jeito nenhum. Já pensou o que falariam dele, pelas costas, se o vissem confraternizando com a ex e aquele que o substituíra?
Empurrou o chopp goela abaixo, matutando o próximo passo. Mas seria possível que aquele restaurante só tivesse uma porta para as pessoas entrarem e saírem? E se houvesse um incêndio, meu Deus? Uma catástrofe certamente mataria a todos. E aquilo era uma catástrofe. Pelo menos pra ele. Pediu um pudim e desabotoou o cinto por completo. Não cabia mais nada em seu estômago abarrotado… e os dois pombinhos ainda nem tinham começado a comer.
Pensou em anunciar o roubo do carro da ex, no auto-falante do restaurante, para que eles saíssem dali, pelo menos por alguns minutos, mas achou ridículo. Primeiro, por fazer isso de um lugar de onde mal dava para ver a rua; Segundo, por não saber qual era o carro do “Mandioca”, como começou a tratar o “rival”, desde então. Não tinha culpa se o sujeito se parecia com uma raiz retorcida.
Resolveu ficar mais um pouco. Comeu um flan, um petit gateau, um brigadeiro, bebeu uma garrafa de água mineral e nada. Nenhuma solução. Já quase sem poder respirar, deu o golpe de misericórdia: pediu uma porção de azeitonas, calculando que demoraria tempo suficiente para se livrar daquele martírio. Logo na primeira, não se lembrou de mais nada. Acordara horas depois, no hospital, com a ex e o Mandioca, sentados ao lado de sua cama, encarando-o. Mais tarde ficou sabendo que foram eles que o carregaram até ali, totalmente inconsciente, a pedido do maître. E agora? O que falariam dele?





No início, pensei que seria um post sobre aquele sketch do MP em que o gordo explode. Sketch Scat.
Enfim… você tem se especializado em ficções, hein… (considere o emoticon *hein)